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14/07/07

Irinéa Catarino

Psicóloga - Recife

A comédia de autoria do ator Odilon Wagner evidencia as marcas da família típica dos nossos dias: Uma família perdida nos seus papéis, sem respeito às diferenças hierárquicas e caracterizada pela constituição de um casal, onde a natureza feminina expressa a posição de mulher, representando toda sua capacidade profissional bem sucedida, emocionalmente bem resolvida, mãe, dona de casa, etc. Isto, no entanto, não garante a eficácia do seu desempenho como mãe, pois está clara na comédia a sua dificuldade de por limites e de representar simbolicamente a lei paterna, ausente pela figura paterna e, sobretudo pela personalidade do homem pai, que ali se coloca, como um pai fraco, ausente, incapaz de servir de modelo identificação, faltando-lhe, portanto a condição de ser uma referência para a sua filha adolescente. A peça ainda mostra como essa impossibilidade do pai, vem transmitida pelas gerações do passado quando o ‘seu pai’ foi marcado por uma fragilidade que levou ao suicídio diante de uma falência econômica, demonstrações de vida. BELÍSSIMA A EVOCAÇÃO DOS SENTIMENTOS PROVOCADOS NA PLATÉIA, NOS FAZENDO PERCEBER QUE UM FILHO, SÓ PODERÁ SER UM VERDADEIRO PAI SE TIVER RECEBIDO DO SEU GENITOR UMA REFERÊNCIA QUE LHE DÊ SUSTENCAO PSÍQUICA DIANTE DA VIDA: é assim que transmitimos nossa herança psíquica entre as gerações.

A presença na família de um homossexual nos traz a vantagem de quebrar nossas resistências e preconceitos, fazendo-nos perceber o tempo todo que era este que tentava por limites no comportamento da adolescente evidenciando assim que a presença de uma lei simbólica que dá uma organização à família independe da orientação sexual do sujeito. Queremos dizer com isto que a FUNÇÃO PATERNA PODE SER EXERCIDA POR OUTRA PESSOA, NÃO NECESSARIAMENTE O PAI BIOLÓGICO.

A comédia mostra ainda o poder fálico da mãe, denunciando a fraqueza do pai, bem como a atual situação em que vivem os adolescentes diante da ausência de uma lei; podendo eles próprios constituir suas próprias leis (perversa), querendo dominar os pais e o mundo, o que ao nosso ver, facilita a origem da violência no mundo atual.

O mais BELO da peça foi identificar o amor que o casal tinha um pelo outro, não podendo ser vivido por causa das dificuldades na sua identidade masculina e feminina causadas pelo entrecruzamento do inconsciente das figuras parentais do passado.

Foi encantador o que a peça aponta no final, mostrando que quando nos permitimos olharmos para dentro de nós mesmos e reconhecermos que todos (casal, pais, filhos) somos falhos e humanos, podemos diante dessa percepção abrir novos caminhos.

Consideramos que a comédia tem UMA FUNÇÃO TERAPÊUTICA porque evoca na platéia o desejo de uma revisão de vida, de valores e o reencontro com situações, emoções, conflitos vividos em nossas famílias. A peça devolve a platéia à esperança da reconstrução dos vínculos amorosos e da relação pais e filhos.

Como terapeuta de adolescente e família, recomendo assistir a esta grande comédia que contribui fortemente para um reflexão mais profunda sobre o sentido da família, o sentido da dor e do sofrimento humano. ‘Quem sabe assim os casais e as famílias busquem ajuda psicológica antes das separações. O meu reconhecimento ao elenco, em especial Etty Fraser que com sabedoria, simpatia e fibra mostrou também a grande importância do ser humano. Beijos a todos.


1.ago.2007
Tânia Vieira

A Odilon Wagner e elenco

Em primeiro lugar queria agradecer a todo o elenco por me proporcionar momentos tão especiais!
Gostaria de comentar que como terapeuta há mais de 16 anos, encontrei elementos na peça, extremamente familiares a minha rotina de consultório. Os seres humanos têm necessidades e questionamentos semelhantes, foi exatamente nestes pontos que a peça pôde tocar profundamente a todos que tiveram como eu, a oportunidade de apreciá-la.
Temas como: o papel do homem e da mulher; a rejeição; a transmissão das emoções familiares através das gerações; a impotência diante de conflitos e tantos outros me fizeram identificar ali muito do que todos vivemos.
Fiquei viajando em tantos outros temas da rotina do consultório que também fariam tanto sucesso quanto este, pois a identificação do público é, em minha opinião, o que faz o sucesso de uma peça.
Estou recomendando a todos os meus clientes e amigos que assistam à peça, pois além de divertida, pode ajudar a cada um em seu processo de desenvolvimento pessoal.
Outra característica que me impressionou foi o transitar leve de temas e cenas intensas e emocionantes para o riso de que tanto necessitamos.
Etty Fraser foi majestosa em sua interpretação que em momentos me projetava completamente dentro de suas emoções ao recordar sua história de vida. Belíssima!!! Típicas de uma de uma Mestra como só ela!!!!
Agradeço também a todo o elenco que nos recebeu no palco de forma tão aconchegante e em especial a Odilon Wagner que foi extremamente receptivo demonstrando curiosidade a respeito da visão de uma psicóloga como eu.
Algumas frases já adotei como pérolas: A dor é inevitável, mas o sofrimento é opcional.
Aproveito para acrescentar outra frase que li recentemente e que esta peça me fez lembrar o tempo todo:
Talvez felicidade também seja poder - e não poder sobre o outro, mas sobre si, expresso na autonomia, na coragem de arcar com as próprias escolhas e na possibilidade de saber da "dor e da delícia" de sermos o que somos. Talvez a felicidade esteja na capacidade de maravilhar-se, a cada dia, não "por causa" mas "apesar".
A cada dia que passa sinto que o teatro e o cinema são grandes instrumentos a serem utilizados nos consultórios. Esta peça despertou em mim, novamente a vontade de aproximar cada vez mais estes dois universos tão semelhantes e diferentes ao mesmo tempo.

Obrigada e parabéns a todos! Adorei mesmo!

Mil Beijos

Tânia Vieira

São Paulo, 01 de Agosto de 2007