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FAMILIA VENDE, COBRA, FAZ RIR E COMOVE

Beth Néspoli
O ESTADO DE SAO PAULO CADERNO 2
23 DE AGOSTO DE 2006

Comédia baseada na tradicional venda de objetos familiares, com texto e direção de Odilon Wagner, tem seu lado de novelão.

Etty Fraser não é a protagonista de Familia Muda-se, mas sem dúvida é um prazer à parte divertir-se com a simpatia dessa atriz que se estende `a sua personagem, uma velha tia que alterna momentos de lucidez com outros de total confusão mental. Com texto e direção de Odilon Wagner e nove atores no elenco, a comédia Familia Muda-se estreou no teatro Fecomércio. O argumento foi criado a quatro mãos por Odilon Wagner e Tânia Bondezan que interpretam o casal dessa família. 'A idéia surgiu numa festa de aniversário quando um amigo comentou sobre esse ‘negócio’ de venda de objetos familiares.' Para quem ainda não sabe, a antiga tradicão de colocar à venda os objetos de uma casa, por motivo de mudança para o estrangeiro virou negócio. 'Tem gente que até aluga uma casa, a mobilia, e passa a vender coisas ali, no velho estilo ‘familia vende tudo’ , só que é um negócio mesmo', conta Odilon. Portas abertas para os possíveis compradores, entra nessa casa o marido (Odilon Wagner) que há dois anos abandonara a família, sem qualquer explicação, para se deparar com todos seus objetos expostos, e à venda. É só o ponto de partida. Vai enfrentar as cobranças da mulher (Tânia Bondezan) e, o mais grave, da filha adolescente (Paula Weinfeld).

'Tentei fazer algumas inversões de papéis tradicionais. Esse homem que deixou a casa por estar em crise, é um cara mais sensível, enquanto sua mulher é mais durona', diz Odilon Wagner. 'Claro que tudo isso na chave do humor. Buscamos a leveza, Familia Muda-se é uma comédia romântica, despretenciosa, tem seus momentos de novelão, de sitcom. Mas eu não sei fazer humor escrachado, acho que a boa comédia tem de emocionar também, tem de ser uma história de vida, interpretada com verdade.' O humor dessa comédia brota do estranhamento do pai com as ‘novidades’ da casa, entre elas o namorado da filha (Hermano Moreira), que evidentemente será rejeitado pelo sogro, e vice versa. Brota ainda do personagem vivido por Mario Schoemberger, um ótimo ator, que consegue tirar graça de seu personagem homosexual sem criá-lo de forma afetada, pelo contrário, valorizando nele o seu papel de elemento agregador nessa família. Papel semelhante, elemento cômico, mas também agragador, tem Etty Fraser no papel da velha tia judia desmeroriada. Ela simlesmente esqueceu onde guardou uma preciosa pintura de Lasar Segall que poderia tirar a família da pindaíba. Em muitos momentos, ela fala em iídiche, idioma também usado pela empregada negra da casa ( Olivia Araújo), que cuida com desvelo da velhinha. ' É muito natural, isso do estrangeiro, em momento de emoção, falar no seu idioma natal' observa Odilon Wagner. 'Quando decidimos escrever a peça, eu a Tânia frequentamos algumas dessas casas em que ‘familia vende tudo’ e também coletamos muitas hisórias familiares. Na peça há casos verídicos, como por exemplo a cena em que a empregada dança com o marido e são flagrados pela mulher', conta. Também é caso verídico a história do quadro desaparecido. Claro que na peça o ‘acontecido’ é recriado.. Embora dificilmente um marido suma de casa por dois anos sem dar notícia, a difícil relação entre pai e filha adolescente serve bem para pais separados ou não. 'A intencão era essa mesmo, embora essas questões sejam tocadas com leveza'.